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ALÉM DA ARQUITETURA: PIONEIRISMO E LEGADO NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ARQUITETO NEUDSON BRAGA

*artigo selecionado para apresentação oral no 5º Seminário Docomomo Norte/Nordeste, que aconteceu em novembro de 2014, em Fortaleza, CE.

 

Introdução

 

No contexto atual de crescimento desenfreado das cidades tornam-se urgentes iniciativas que busquem valorizar e documentar a arquitetura moderna, em especial em grandes cidades como Fortaleza, onde a maior parte do acervo moderno está desaparecendo como resultado de uma especulação imobiliária descontrolada e regida principalmente por motivações comerciais, sem uma visão urbana coletiva. Paralelo a isso, é fundamental considerar também o pioneirismo de arquitetos que se destacam não apenas pelos edifícios projetados, mas também por uma atuação que extrapola o projeto e a obra e que leva em conta outra construção tão ou mais importante: a da profissão em si.

Neudson Braga é um desses exemplos. Nascido em Fortaleza em 1935, o arquiteto migra para o Rio de Janeiro em 1954 para cursar a Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual UFRJ), permanecendo até o ano de 1960. O momento foi de fundamental importância para a vida profissional do arquiteto. Segundo Diógenes e Paiva (2012, p.66),

Diplomar-se no Rio de Janeiro foi para o arquiteto uma imersão nos grandes acontecimentos da arquitetura moderna, presenciando a construção de obras emblemáticas na cidade e a realização de concursos de arquitetura, inclusive o de Brasília. Somado a isso, havia o contato com mestres e profissionais de prestígio que protagonizaram o ensino e a produção da arquitetura moderna brasileira, como Paulo Santos, Pedro Paulo Bastos, Paulo Pires, Ernani Vasconcelos e Sabóia Ribeiro.

Em conjunto com outros arquitetos[1] formados também no Rio de Janeiro ou no Recife, retorna ao Ceará com a influência da arquitetura moderna praticada no momento, enfrentando o grande desafio de inserir a prática da profissão na sociedade cearense, que era praticamente desconhecida no período em questão. Começa, então, a trabalhar como professor na Escola de Engenharia da UFC e como integrante da equipe técnica do Departamento de Obras e Projetos da mesma instituição, juntamente com Liberal de Castro. Quatro anos mais tarde seria convidado pelo Reitor Martins Filho, junto com outros professores, a fundar a Escola de Arquitetura da UFC[2]. Essa foi uma das primeiras experiências de criação de uma escola de arquitetura que não vinha nem de uma escola de belas artes nem de uma politécnica. Segundo Castro (1982 apud. DIÓGENES; PAIVA, 2011)[3]:

Pela primeira vez, no ensino em Arquitetura, um grupo de arquitetos tinha isoladamente a oportunidade e responsabilidade de montar um curso destinado ao ensino da sua profissão (...) a escola tornou-se quase que imediatamente um grande centro de atividades culturais da Universidade e da Cidade, envolvida numa aventura pedagógica apaixonante.

Muito se fala sobre a importância para a arquitetura moderna brasileira da troca de informações decorrente dos deslocamentos dos arquitetos a partir da década de 1950 em todo o Brasil. No caso de Neudson Braga, esse intercâmbio se deu inicialmente na sua formação e posteriormente com a criação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFC, período em que realizou viagens a várias partes do país e trouxe arquitetos de fora para diferentes participações na Escola[4], aumentando sua rede de contatos. Segundo Diógenes e Paiva (2011):

Esta mobilidade de pessoas, ideias e valores criou vínculos entre centros emissores e receptores, favorecendo a afirmação da arquitetura moderna brasileira, ao mesmo tempo em que contribuiu para o surgimento de uma diversidade de manifestações do modernismo arquitetônico, justificadas em função, principalmente, das resistências materiais e ambientais dos lugares.

Além disso, o desenvolvimento de um currículo inovador para a época, com enfoque maior na própria disciplina da arquitetura, também contribui para um importante reconhecimento a nível nacional.

Neudson Braga teve um papel importante nessa rápida repercussão positiva, como por exemplo, em 1967, como diretor da Escola, quando o arquiteto montou uma exposição sobre a experiência pedagógica da instituição. A apresentação foi levada para o Encontro Nacional de Ensino de Arquitetura, em São Paulo, juntamente com trabalhos de alguns alunos do curso. A repercussão foi bastante positiva e a exposição ganhou grande destaque no Encontro, tendo o arquiteto terminado como um dos relatores do evento. Nessa oportunidade, Neudson conheceu professores de diversos estados. Vale destacar também que, na ocasião, ele era o único diretor de escola de arquitetura que era arquiteto[5], o que demonstra o caráter pioneiro de sua atuação.

Além da atuação acadêmica, Neudson também ganha destaque na área de projetos, tanto no Departamento de Obras da UFC ou através de escritório próprio desde o ano de 1960. Isso faz com que ele passe a ser convidado para compor júris em diversos concursos no país. Como exemplo, podemos citar a participação como membro da banca avaliadora da Bienal de Arquitetura de São Paulo[6] e do Concurso para a sede do Banco do Nordeste de João Pessoa[7], ambos em 1969. Esse reconhecimento, entre outros fatores, pode ter levado o seu nome a, mais tarde, ser cogitado como uma das pessoas qualificadas para liderar o processo de reabertura do Instituto de Central de Artes e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, conforme veremos adiante.

 

Reabertura do Instituto de Artes e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – UNB

 

Para explicar a crise na UNB que culminou no seu posterior fechamento por parte dos estudantes, convém antes falar do processo de criação e dos anos iniciais de existência. Inaugurada em 1962, suas aulas tem início em abril do mesmo ano (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 2014a). Com uma grade curricular baseada nas ideias de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, a universidade se organizava com uma estrutura montada com a ideia de integrar os diversos campos do conhecimento. Para isso se dividia em três tipos de órgãos que interagiam entre si: os Institutos Centrais, as Faculdades e os Órgãos Complementares. Em linhas gerais, os Institutos Centrais eram responsáveis pelos cursos básicos de campos de conhecimento abrangentes, as Faculdades pelo ensino especializado dos alunos já advindos dos cursos básicos e os Órgãos Complementares eram os Departamentos, formados pelo corpo Docente como unidade de trabalho e pesquisa em uma área bem definida, sendo responsável por algumas disciplinas das faculdades. Essa estrutura tinha como grande diferencial a possibilidade de o aluno mudar sua trajetória de formação ao longo da universidade (DIAS, 1970). No curso básico, o aluno era estimulado a cursar algumas disciplinas de outros Institutos além do qual havia ingressado. Caso percebesse uma aptidão maior para outra área, era permitido ao aluno transferir-se para outro Instituto, escolhendo assim um novo caminho de formação profissional. Isso possibilitava uma formação abrangente além de uma forte integração entre os discentes, que passavam a ter uma noção geral do que acontecia em todas as áreas na universidade. Era uma experiência riquíssima que intensificava o envolvimento dos estudantes com a Universidade.

No entanto, isso mudaria drasticamente após o Golpe Militar de 64, quando o Instituto Central de Artes (ICA) passou a ser um dos principais alvos de repressão do regime, chegando a ser invadido pela Polícia Militar (UNIVERSIDADE DE BRASILIA, 2014b) em abril de 64 e em mais duas ocasiões posteriormente. Vários diretores da UNB foram cassados, inclusive o então reitor Anísio Teixeira, que foi substituído por Zeferino Vaz. Em outubro de 1965, em solidariedade a 15 professores demitidos por serem considerados subversivos, ocorre uma demissão voluntária em massa de 223 professores, entre eles Edgar Graeff e José Filgueiras Lima, o “Lelé” (PRONSATO, 2008). Esse vazio, então, foi sendo substituído pela contratação de novos Docentes, muitos destes escolhidos apenas pela sua ligação com a Ditadura Militar.

 

 

Figura 01 – Em 29 de agosto de 1968 a UnB é invadida pelas polícias Militar, Civil, Política (DOPS) e do Exército. (Fonte: Acervo Cedoc)

 

Esse panorama, nos dois anos seguintes, causou uma grande insatisfação entre os estudantes do ICA-FAU, que como primeira medida de resistência resolveram confrontar intelectualmente os professores. Assim formaram grupos de estudo para se aprofundarem nos assuntos ensinados antes das aulas e pressionar os professores com discussões e perguntas de maneira a expor a falta de preparo do novo corpo Docente. Dessa forma criou-se um clima hostil de pressão sobre os professores[8], o que geraria uma greve dos estudantes em 1967. Após a renúncia do reitor Laerte Ramos de Carvalho, a reitoria foi assumida por Caio Benjamin Dias que, para compensar as aulas perdidas em 1967, contrata um grupo de professores do Paraná (PRONSATO, 2008). Apesar da qualidade dos professores, que sempre se destacavam em concursos, os estudantes votam contra o reinício das aulas, permanecendo em greve, conforme explica Pronsato:

Afirmando que desejavam fazer arquitetura e urbanismo para a sociedade e não tinham como objetivo principal ganhar concursos, os estudantes, em Assembléia Geral, votaram contra o reinício das aulas,...

Começou, então, um processo de negociação entre a Reitoria e o Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB (que passava por uma transição de Fábio Penteado para Eduardo Kneese de Melo) (INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL, 2014). e os estudantes para a indicação de um arquiteto que seria responsável pelo processo de reabertura do conjunto ICA-FAU. Nesse momento, o estudante José Antônio Prates, um dos importantes líderes estudantis na época, faz uma visita a Fortaleza para sondar com Neudson Braga a possibilidade de sua ida a Brasília[9].

Neudson então aceita o convite, mas sabendo do ambiente obscuro no qual se encontrava Brasília na época, resolve não ir sozinho e convida seu companheiro de UFC, Liberal de Castro, para acompanhá-lo na empreitada. Pronsato afirma que:

Para entender o contexto em que se deu a abertura da FAU-UNB, é conveniente lembrar que quase dois meses antes dessa reunião, no Rio de Janeiro, foi morto a tiros pela polícia militar, em 28 de março de 1968, o estudante secundarista Edson Luis. A seu enterro compareceram 50 mil pessoas e o episódio agravou o enfrentamento entre estudantes e o governo militar.

Neudson seria convidado a uma reunião com a diretoria nacional do IAB para decidir como seriam feitos os trabalhos de reformulação do ICA-FAU. Lá foi sugerida a criação de uma comissão com representantes de vários estados, sendo finalmente formada por: Paulo Magalhães (IAB-DF), Miguel Pereira (FAU-UFRGS), Paulo Mendes da Rocha (FAU-USP) que foi substituído em seguida por Paulo Bastos por impossibilidade de comparecer (PRONSATO, 2008), Liberal de Castro e Neudson Braga, que assumiu a coordenação. Além deles havia um grupo de cinco estudantes, liderados José Antônio Prates, conformando uma comissão paritária.

 

 

Figura 02 – Designação da Comissão por parte do reitor Caio Benjamim Dias. (Fonte: Acervo Neudson Braga)

 

Como foi mencionado anteriormente, o momento era de muita tensão entre estudantes e autoridades. Em 26 de setembro de 1968, ao mesmo tempo em que o Conselho Diretor da UNB decide expulsar o estudante Honestino Guimarães, elege o vice-reitor José Carlos de Almeida Azevedo (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 2014a), figura polêmica na história da UNB.

Esse momento coincide com dois grandes desafios enfrentados pela comissão liderada por Neudson. Inicialmente, a principal demanda dos discentes (da qual eram irredutíveis) era a total reformulação do quadro docente. Esse desafio era extremamente complicado para a comissão, pois a colocava numa posição delicada em relação aos professores, já que no quadro atual também tinham bons profissionais. O então vice-reitor, vendo a seriedade da situação e confiando no trabalho da comissão, destitui todo o corpo docente[10]. Sem dúvidas uma vitória da comissão e estudantes. O segundo problema enfrentado foi que nenhum dos professores que tinham sido destituídos anteriormente pelo golpe militar ou os que haviam se demitido voluntariamente em solidariedade aos demais aceitava ser contratado novamente pela Universidade. Fora isso, existia um receio até de arquitetos que não faziam parte do corpo docente anterior em estarem desrespeitando os professores demitidos[11]. Por isso, a comissão foi obrigada a fazer uma peregrinação para conversar e convencer profissionais de várias partes do país a formarem o novo quadro de professores.

Após intensos dias de trabalho, no dia 15 de outubro de 1969 o ICA-FAU finalmente foi reaberto (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 2014a). Findado o trabalho da comissão, o membro local, Paulo Magalhães, foi designado para assumir a diretoria do ICA-FAU. No entanto, seu trabalho durou poucos meses devido a um desentendimento com os estudantes. Assim, Neudson Braga foi novamente solicitado e assumiu provisoriamente a diretoria por cerca de dois meses, até quando articulou o nome de Miguel Pereira para substituí-lo e ser o novo diretor efetivo.

Não se sabe ao certo como o nome de Neudson Braga ganhou força para a indicação de liderar esse processo tão complexo, mas uma série de fatos descritos anteriormente já dava a ele uma reputação positiva. O reconhecimento de seu trabalho como Diretor da FAU-UFC, principalmente após o Encontro Nacional de Ensino de Arquitetura de 1967, em São Paulo e a boa relação com arquitetos de diferentes partes do país contribuíram significativamente[12]. Além disso, o arquiteto tinha uma reconhecida qualidade de mediação e diálogo[13]. Nesse momento de intensa radicalização, essa qualidade certamente foi considerada pelas partes interessadas. O fato é que seu nome foi o primeiro a atingir o consenso entre Reitoria, IAB e corpo discente da UNB, o que reforça a importância dessa participação.

 

Participação no Concurso para a sede do BNB

 

O segundo momento destacado neste trabalho trata de um episódio menos ligado às atividades políticas e acadêmicas do arquiteto e se relaciona mais à sua atuação profissional, apesar de, pelo próprio objetivo do trabalho, não tratar diretamente sua produção arquitetônica. No final de 1977, o arquiteto foi convidado, juntamente com outros profissionais, a participar do Concurso Regional de Anteprojetos para o Edifício Raul Barbosa, Sede da Direção Geral do Banco do Nordeste no Brasil. Na ocasião, o arquiteto já era bastante familiarizado com este tipo de programa, uma vez que possuía uma vasta experiência com projetos de agências de diversos bancos, como o Banco do Brasil, Banco do Estado do Ceará – BEC, além do próprio Banco do Nordeste, do qual, como já foi citado, já havia participado também da comissão julgadora de outro concurso semelhante em João Pessoa.

A importância deste concurso para este trabalho consiste no fato de que Neudson Braga, que trabalhou neste projeto juntamente com o arquiteto Joaquim Aristides, então recém-formado pela UFC e já seu colaborador constante, ao iniciar os estudos sobre o projeto, optou, no fim, por não entregar uma proposta arquitetônica, mas uma carta de quatro páginas na qual pontua alguns questionamentos que, segundo ele, inviabilizariam o bom resultado do projeto.

O projeto vencedor é de autoria dos arquitetos Nelson Serra e Neves, José Alberto de Almeida, Antônio Carlos Campelo e Carlos Alberto Costa e foi inaugurado em julho de 1982. Não é o objetivo deste trabalho desenvolver uma análise crítica mais aprofundada sobre o projeto em si, motivo pelo qual não serão discutidos seus detalhes, apenas aqueles fundamentais para o objetivo do artigo. Sua importância reside, justamente, no fato do edifício ter sido construído, sendo possível verificar a pertinência das questões levantadas por Neudson em sua carta e confirmar que alguns dos pontos levantados de fato se confirmaram como acertados.

 “A honra de ter sido um dos candidatos a participar do Concurso Privado de Anteprojetos do Ed. Raul Barbosa levou-me a reflexões e constatações que resultaram na atual decisão, certo de interpretar convicções e conceitos de uma coletividade, que por uma razão ou outra, não pode se manifestar. A gratidão pelo convite obriga-me a uma resposta ao desafio do Concurso, embora desta vez minha manifestação não se apresente em forma de desenhos, mas em palavras escritas, que coerentemente com minhas obras, estão cheias de simplicidade, sinceridade e despretensão.”

 

 

Figura 03 – Reprodução completa da carta do arquiteto Neudson Braga. (Fonte: Acervo Neudson Braga)

 

Ao ler a carta, fica evidente que a principal preocupação do arquiteto e objetivo maior do questionamento levantado trata da relação que o edifício viria a ter com o seu entorno.

“No caso em questão, sem considerar o fator lucro, resulta a otimização de uso e adequação de funções, relações que não deve estar restritas ao edifício, mas à sua condição de peça de um sistema maior: a cidade.”

Neste sentido, é possível destacar dois pontos levantados que são fundamentais justamente por terem se mostrado pertinentes e, de uma maneira ou de outra, se concretizado no decorrer do tempo: a relação entre as exíguas dimensões do terreno e o programa proposto, e a relação entre o porte do edifício e a escala do Centro de Fortaleza.

Sobre o primeiro ponto, vale destacar que, inicialmente, o terreno destinado ao edifício contava apenas com um lote de duas testadas, uma na Rua Floriano Peixoto e outra na Rua Assunção, localizado entre a Rua Pedro Pereira e a Rua Pedro I. Este terreno abrigava o antigo Colégio Lourenço Filho, que havia mudado de sede, e possuía divisa com duas edificações nas laterais.

 

 

Figura 04 – Colégio Lourenço Filho em sua inauguração, em 1938. (Fonte: Arquivo Nirez)

 

Essa dificuldade de inserir a nova edificação e estabelecer relação com o entorno edificado foi destacada na carta, chegando, inclusive, a sugerir que na apresentação das propostas tal relação dificilmente seria demonstrada.

“Quem terá a coragem de arriscar, nas montagens de maquetes ou nas perspectivas do conjunto, o resultado final do edifício, considerando as múltiplas e imprevisíveis ocupações que se processarão ao longo das duas divisas laterais? Por certo, todas as propostas se limitarão à referência do edifício com o estado atual (sem qualquer expressão de relação) ou tomarão o edifício isoladamente, desconhecendo uma cidade que o circunda, de forma cada vez mais asfixiadora. Daí, então, as prováveis fotos de distâncias impossíveis e perspectivas aéreas.”

 

 

Figura 05 - Maquete do projeto vencedor (Fonte: PONCE DE LEON; NEVES e LIMA NETO)

 

Após o resultado do concurso, algumas medidas foram tomadas para amenizar esta questão. Primeiramente, com a compra do terreno contíguo que foi incorporado no projeto numa galeria lateral e, posteriormente, com a criação da Praça Murilo Borges. Esta última, de autoria do arquiteto Otacílio Teixeira Lima Neto, está localizada entre a Rua da Assunção, Rua Pedro I e Rua Floriano Peixoto e foi inaugurada em março de 1983, quase um ano após a inauguração do edifício. A iniciativa partiu do próprio banco, que adquiriu e demoliu as casas que ali ficavam. A praça, que ficou conhecida como a Praça do BNB, tornou-se parte fundamental do projeto, pois é a partir dela que se pode ter uma melhor percepção e apreensão do edifício em suas dimensões totais. O vazio gerado pela praça mostrou-se fundamental na escala de inserção do edifício naquele lugar. Estes fatos comprovam, portanto, que o terreno, como havia sido proposto inicialmente, se mostrava inadequado para o programa.

 

 

Figura 06 – Praça Murilo Borges (Fonte: Jairo Silas)

 

Sobre a inadequação do porte do edifício em relação à escala do Centro de Fortaleza, Neudson fala sobre como o local poderia ser propício para uma agência do banco, mas não para sua sede administrativa, chegando a sugerir que esta fosse para outro terreno...

“Admitimos a grande validade de uso do espaço atual para instalação da Agência Centro de Fortaleza. (...) Quanto aos serviços administrativos, hoje já fracionados e instalados precariamente em vários pontos da cidade, deveriam atender a um programa de expansão concentrada, em módulos que se localizassem em área apropriada, que atendesse, simultaneamente, às reais necessidades de desenvolvimento do Banco e aos programas de expansão e zoneamento da cidade.”

O mais interessante deste ponto é que, em março de 2001, instala-se definitivamente no Centro de Fortaleza a Justiça Federal nos 5º ao 16º andares do Edifício Raul Barbosa, permanecendo no prédio apenas a Agência Central e o Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil – BNB, tendo sua sede administrativa sido transferida para o Centro Administrativo Presidente Getúlio Vargas, localizado no bairro Passaré. E, a partir de 2012, o BNB deixa definitivamente o edifício Raul Barbosa para concentrar suas atividades na sede do Passaré, algo bem similar ao que havia sido proposto na carta.

É importante destacar que o objetivo aqui não é fazer uma crítica ao projeto vencedor do concurso. Pelo contrário, o edifício possui aspectos bastante interessantes que fazem dele um dos grandes exemplares da arquitetura moderna cearense. É preciso, no entanto, ressaltar a validade e pertinência da opção do arquiteto Neudson Braga, principalmente pelo não reconhecimento por parte da organização do concurso. Na exposição dos trabalhos participantes, por exemplo, não houve qualquer menção à sua participação. E aspectos incorporados posteriormente ao resultado do concurso e que em muito contribuíram para a qualidade do projeto estavam presentes nos questionamentos da carta.

A relevância deste caso reside, primeiramente, no acerto de algumas questões levantadas no documento, como já foi visto, mas, principalmente, na importância para o entendimento da visão do arquiteto contida na decisão de não participar do concurso com uma proposta arquitetônica. Este fato evidencia que a atuação profissional vai muito além de simplesmente buscar coerência formal nos edifícios, mas sim uma postura ética que vá além da arquitetura. Como o próprio arquiteto diz na carta ‘E a minha opção, no instante final, foi o registro de uma inquietação, que espero seja a inquietação de todos. ’.

 

Considerações finais

 

É preciso que o estudo da arquitetura moderna vá além da análise das obras deste período. A coincidência das primeiras obras modernas com o surgimento dos cursos de arquitetura no Brasil gerou um quadro extremamente rico e de grande intercâmbio. É preciso, portanto, levar em conta também a consolidação da profissão que aconteceu neste momento.

Neudson Braga conseguiu conciliar ao longo de sua trajetória uma atuação prática, acadêmica e política intensa, o que o faz um excelente exemplo para se estudar a prática profissional dos arquitetos deste período de forma mais ampla. Suas obras e trajetória acadêmica já têm um grande reconhecimento, e o objetivo deste trabalho é aliar a isso um reconhecimento por sua postura política que perpassou todos suas outras atividades. Suas participações na reabertura da Faculdade de Brasília e no Concurso para a Sede do BNB são exemplos claros disso, mas são apenas dois dentre muitos outros a serem considerados.

No caso específico do Ceará, a atuação de arquitetos na cidade começa a partir da metade do século XX. Alguns destes mesmos arquitetos pioneiros ainda estão ativos na profissão, como é o caso do arquiteto Neudson Braga, e é preciso aproveitar essa oportunidade para entender e registrar como se deu esse início da profissão no nosso estado. Talvez, assim, possamos entender melhor a importância destes arquitetos e de suas atuações profissionais de uma maneira mais ampla e completa e valorizar mais esse legado que, se não tivermos cuidado, pode desaparecer e apagar feitos tão valiosos como os destacados neste artigo.

 

Agradecimentos

 

Aos arquitetos José Liberal de Castro, Roberto Martins Castelo, Fausto Nilo e Joaquim Aristides pelas entrevistas concedidas aos autores em 2014.

Ao arquiteto Neudson Braga, pelo exemplo que é não apenas como arquiteto através de suas obras, mas como pessoa através de suas ações.

 

 

Referências

DIAS, Caio Benjamin. A estrutura da Universidade de Brasília. In: Revista Acrópole ano 31, nº 369. São Paulo, 1970.

DIOGENES, B. H.; PAIVA, Ricardo Alexandre. Caminhos da Arquitetura Moderna em Fortaleza: A contribuição do professor arquiteto José Liberal de Castro. In: 9 DOCOMOMO Brasil, Brasília, 2011.

DIOGENES, B. H.; PAIVA, Ricardo Alexandre. Arquitetura Silenciosa. In: Revista Arquitetura e Urbanismo, edição 224. São Paulo, Pini, 2012, p.65-69.

INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL. História. Disponível em: http://www.iab.org.br/historia, acessado em 04/09/2014.

JUCÁ NETO, Clóvis; ANDRADE, Margarida J. F. S.; DUARTE JR., Romeu. Reflexões Sobre o Brutalismo Cearense. In: X DOCOMOMO BRASIL, 2013.

PAIVA, Ricardo Alexandre; DIOGENES, B. H.. Caminhos da Arquitetura Moderna em Fortaleza: A contribuição do professor arquiteto José Neudson Braga. In: 4 Arquitetura em cidades “sempre novas”: modernismo, projeto e patrimônio, Natal, 2012.

PEREIRA, Miguel. Arquitetando a esperança / Miguel Pereira, São Paulo: Pini, 2012.

PEREIRA, Miguel. Arquitetura: cultura, formação, prática e política profissional / Miguel Pereira, São Paulo: Pini, 2005.

PONCE DE LEON, Delberg; NEVES, Nelson Serra e; LIMA NETO, Otacílio (Orgs). Panorama da Arquitetura Cearense – Cadernos Brasileiros de Arquitetura. Vol. 1 e 2. São Paulo: Projeto Editores Associados Ltda., 1982

PRONSATO, Sylvia Adriana Dobry. Para quem e com quem: ensino de Arquitetura e Urbanismo. FAU-USP – São Paulo, 2008.

SAMPAIO NETO, Paulo Costa. Residências em Fortaleza, 1950-1979: contribuições dos arquitetos Liberal de Castro, Neudson Braga e Gerhard Bormann / Paulo Costa Sampaio Neto. – São Paulo, 2005.

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Linha do tempo. Disponível em: http://www.unb.br/unb/historia/linha_do_tempo/60/index.php, acessado em 04/09/2014. 2014a.

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Instituto de Artes. Disponível em: http://www.ida.unb.br/o-instituto-de-artes, acessado em 04/09/2014. 2014b.

 

 

 

[1] Enéas Botelho, Ivan Brito, José Liberal de Castro, Luís Aragão, Marrocos Aragão e Roberto Villar de Queiroz foram pioneiros, juntamente com Neudson Braga, na prática da arquitetura no estado do Ceará.

 

[2] Armando Farias, Ivan Britto e Liberal de Castro.

 

[3] CASTRO, José, L. Panorama da Arquitetura Cearense, In: Cadernos Brasileiros de Arquitetura, v. 9 e 10. São Paulo: Projeto, 1982.

 

[4] Exemplo disso é o convite ao arquiteto Edgar Graeff, em 1967. No período, o arquiteto estava afastado da UNB.

 

[5] Neudson Braga, em entrevista concedida aos autores em 07/06/2014.

 

[6] Nessa ocasião, um grupo de estudantes do curso de arquitetura da UFC viria a ganhar a Medalha de Ouro da Bienal. O Grupo era formado pelos estudantes Fausto Nilo, Nelson Serra, Nearco Araújo, Eliane Câmara e Flávio Remo.

 

[7] Informações retiradas de curriculum vitae elaborado e assinado pelo próprio arquiteto.

 

[8] Roberto Castelo, 2014, em entrevista concedida aos autores em 18/08/2014. Roberto era aluno do ICA à época.

 

[9] Fausto Nilo, 2014, em entrevista concedida aos autores em 21/08/2014.

 

[10] Neudson Braga, em entrevista concedida aos autores em 07/06/2014.

 

[11] Idem. Segundo Neudson Braga, o arquiteto Edgar Graeff foi um importante aliado na comissão nesse processo inicial, ajudando a desmistificar essa suposta desaprovação em relação aos novos professores que seriam contratados.

 

[12] Exemplo citado anteriormente da visita de Graeff a Fortaleza, a convite de Neudson, em 1967.

 

[13] Roberto Castelo, 2014, em entrevista concedida aos autores em 18/08/2014.

 

Autores:

Bruno Braga

Bruno Perdigão

Igor Ribeiro