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Concurso para Moradia Estudantil UNIFESP - Sede São José dos Campos
 

Autores

Bruno Braga, Bruno Perdigão, Igor Ribeiro

em parceria com Atelier Rua;

Colaborador

Luiz Cattony (arquiteto), Mariana Quezado (arquiteta) e Isabela Castro (estágiária).

​São José dos Campos - SP, 2014

 

 

 

O crescimento exponencial da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e a criação de vários campi – como o Campus da Baixada Santista, o de Diadema, o de Guarulhos ou o de São José dos Campos, alvo deste concurso – está na origem da necessidade premente de construção de moradias estudantis para garantir o apoio e devidas condições de estudo e permanência do corpo discente, de alunos cotistas e de baixa renda.

O desafio projetual a que nos propomos consiste em desenvolver um conceito modular de moradia estudantil, que se adapte a diferentes locais, programas e ambientes, tendo como objetivo a sua possível implementação em locais distintos, a sua ampliação caso necessário, ou, inclusive, a alteração do seu programa no futuro. Pretende-se, também, que este desafio possa servir de estudo de caso, a exemplo das “moradias econômicas”, que são hoje um tema de especial interesse no contexto da arquitetura e das políticas públicas.

O projeto estabelece um conceito de moradia adaptável, tendo como ponto de partida a produção industrializada, a modulação, a produção em série dos componentes e a utilização de elementos pré-fabricados, que conduzem ao desenvolvimento de um módulo, um sistema de possível repetição com várias composições.

Através de uma estrutura pré-moldada de vigas, pilares e lajes de concreto, os edifícios adaptam-se a diferentes tipos de terreno, morfologias e contextos urbanos. A utilização do concreto protendido promove o aproveitamento do espaço, libertando-o para a implementação de módulos de moradias.

A composição de três módulos base – módulo com quatro quartos individuais, módulo com dois quartos compartilhados e módulo-família – distribuídos pelas lajes estruturais, dá resposta às demandas do programa.

A formalização do módulo tem em conta a possível implantação em diversos contextos, desde estruturas em altura em espaços mais urbanos, a uma estrutura de menor dimensão para contextos de menor densidade urbana, até à sua possível utilização individual ao nível térreo em áreas mais rurais. Desta forma é possível dar resposta a diferentes programas.

Um terceiro elemento, ‘plug-in’, é determinante para uma boa resposta ao ambiente e clima. A materialização das fachadas nascente e poente é desenvolvida tendo em conta o clima do local de implantação. Fachadas mais permeáveis em climas mais quentes e o oposto em climas mais frios. A diferente materialização das fachadas possibilita uma personalização de cada projeto.

Em conclusão, o projeto é desenvolvido a partir da escala do quarto, passando ao conjunto de quartos denominado módulo, à composição de um conjunto de módulos e, finalmente, à sua implantação urbana.

URBANO: TERRENO LIVRE E DE USO PÚBLICO

No Campus de São José dos Campos, o terreno destinado à implementação das moradias, de 12.929,89 m2 e enquadrado numa área total de 214.832,00 m2, posiciona-se no centro da área total pertencente à UNIFESP. O seu declive acentuado, com o ponto mais alto a sul e o ponto mais baixo a norte, permite um contato visual com toda a área pertencente ao campus. Todo o terreno está envolto por uma Área de Proteção Ambiental que proporciona uma independência e separação física da Área Acadêmica existente, a poente, e da prevista, a nascente. Os edifícios das moradias vão se organizar no sentido sul-norte, acompanhando o declive, com os quartos a nascente relacionados com o verde da Área de Proteção, e as circulações a poente relacionadas com a Área Acadêmica.

Na extremidade sul do terreno faz-se o acesso de automóvel às moradias. Após o controle, encontra-se um pequeno parque de estacionamento com dez vagas para visitantes, mais três unidades acessíveis para Portadores de Cadeiras de Rodas, duas para Portadores de Necessidade Reduzida e duas para Portadores de Obesidade.

Junto à ponte que faz a ligação com a Área Esportiva, encontra-se um espaço público de permanência central, tendo em conta a distribuição das moradias. Esta zona funciona como distribuidora para os diversos blocos de moradias, tendo também uma relação direta com o programa público adjacente: sala de jogos, espaço multiusos, cineclube e miniteatro. Todo o programa público se desenvolve no piso 0, distribuído de forma homogênea por toda a área de moradias.

A norte, comunicando com a Área de Convivência, encontra-se outro espaço público de maiores dimensões, funcionando também como uma praça receptora e distribuidora dos fluxos provenientes da ligação viária que divide a área reservada às moradias da Área de Convivência e que comunica com as Áreas Acadêmicas.

As circulações no piso térreo fazem-se na projeção das galerias superiores, mantendo assim as circulações no lado poente dos edifícios, de forma a proteger o lado nascente, onde se encontram os quartos, do barulho. Para além das circulações adjacentes aos edifícios, são traçados percursos que atravessam os pátios de uma forma orgânica, criando, assim, alternativas fluidas de trajeto por toda a área das moradias. Nestes percursos encontram-se também marcadas as ciclovias. Os percursos são materializados em concreto poroso, não impedindo a infiltração da água no terreno e são dimensionados de forma a tornar possível a circulação de automóveis de emergência.

São propostos vários espaços exteriores de parada, sempre relacionados com os percursos, para reflexão e contemplação, tanto individuais, como destinados a grupos e atividades lúdicas, como é o caso do anfiteatro ao ar livre. Pretende-se um piso térreo livre, de uso público, o mais em contato possível com o terreno existente, em que surjam zonas de sombra provocada pelos pisos superiores, espaços ajardinados que protegem os quartos de barulho, espaços de permanência e distribuição localizados em pontos estratégicos e ligações fluidas a todos os pontos do Campus.
 

 

 

 

EDIFÍCIO: INSERÇÃO NO LUGAR – DESNÍVEL COMO ESTRATÉGIA

Duas questões foram primordiais na adequação do módulo arquitetônico base ao terreno em questão: a topografia e a orientação solar.

O terreno possui um declive bastante acentuado que permite o escalonamento dos edifícios. A flexibilidade do módulo permitiu que este se adequasse perfeitamente a tal situação, gerando espaços de grande qualidade devido aos desníveis criados. O desnível passa a atuar não como complicador, mas como estratégia. A implantação dos edifícios vai se adaptando ao nível do terreno, criando um conjunto que se pode ler como uma mega-estrutura, criando, no total, 15 blocos interligados.

Cada edifício é composto por quatro ou seis módulos, que correspondem a dois ou três pavimentos de habitação. Estes pavimentos, de utilização apenas pelos habitantes das moradias, encontram-se elevados em relação ao solo permitindo “soltar” o piso térreo para programa de uso coletivo geral. Desta forma, obtém-se maior independência para os espaços mais privados, como uma menor área de contato com o solo, onde se pretende um maior número de espaços de convivência. Os pisos térreos dos edifícios são preenchidos por programa de uso coletivo geral e áreas técnicas.

O escalonamento e a implantação intercalada dos edifícios, todos interligados entre si através de galerias, proporciona o surgimento de pátios interiores de dimensão idêntica a dos edifícios.

Sendo a convivência e interação entre os estudantes da Moradia Estudantil - assim como entre estes e o público em geral - princípios norteadores do projeto, os pátios foram pensados como zonas de convivência, para além dos espaços de uso coletivo geral já previstos no programa.

Os pátios, grandes espaços internos limitados pela própria edificação, foram configurados de maneira a transformar áreas previamente tidas como remanescentes em zonas de múltiplas funções, contribuindo, por exemplo, para a iluminação das unidades e atuando como espaços de atividades ao ar livre.

As galerias, com três metros de largura, adjacentes às zonas de autosserviço, reforçam o sentido da moradia estudantil, encarando o corredor não apenas como circulação, mas como lugar de encontro e, portanto, de convívio. Através das galerias é possível percorrer toda a área das moradias sempre a um nível superior.

Cada bloco de módulos, cada edifício, tem na sua extremidade sul comunicações verticais de escadas e elevadores. Como as galerias estão todas interligadas entre si, estas comunicações verticais são de acesso público a todos os habitantes, dando acesso a diferentes blocos.

A cobertura dos vários blocos, através do escalonamento, ganha uma importância extra. Para além da sua utilização para colocação de painéis solares, de equipamento para recolhimento e reutilização de águas pluviais e outros equipamentos técnicos, os desníveis de implantação criam acessos nivelados aos terraços, através das galerias. Desta forma, são criados espaços de convivência nos terraços, acessíveis aos habitantes, que se enquadram no âmbito de uso coletivo intermediário.

MÓDULO: INTEGRAÇÃO ENTRE PROGRAMA E ESTRUTURA

A fim de atingir conceitos como facilidade de manutenção e execução do edifício, materiais e técnicas construtivas geralmente aplicados no Estado de São Paulo, adaptação a diversas realidades topográficas e flexibilidade dos espaços projetados, a estrutura escolhida para desenvolver o módulo arquitetônico base foi o sistema pilar-viga-laje em peças pré-fabricadas. Estes componentes, produzidos industrialmente e em série, são fabricados em concreto protendido, material que torna possível o aproveitamento do espaço, libertando-o para a implementação dos módulos.

Os pórticos de pilares e vigas tem um afastamento de 6m, com um comprimento de 12m. Desta forma, dois vãos estruturais compõem um quadrado de 12mx12m. Esta dimensão é a base de desenvolvimento do módulo.

O módulo, determinado com dimensões de 12mx12m, é completamente adaptável ao programa de necessidades da Moradia Estudantil, tanto para o caso de São José dos Campos, quanto para outras realidades espaciais em que a mesma tipologia de edifício se aplique. No projeto do Campus de São José dos Campos, como se referiu, o módulo comporta três variações, em termos de divisão espacial interna, módulo com quatro quartos individuais, módulo com dois quartos compartilhados e o módulo-família.

Nas três variações, os espaços de uso privativo (quartos) encontram-se sempre localizados a nascente, mudando apenas a dimensão das suas divisões internas. Os quartos, em todas as suas versões, são compostos por uma varanda exterior e, para cada pessoa, um espaço de estudo, um de descanso e um vestíbulo. No centro encontra-se uma área de uso coletivo imediato – a área de autosserviço – separada dos quartos por um corredor de acesso aos mesmos. A área de autosserviço é composta por uma área de banheiro, outra de copa e área de serviço comum aos quartos existentes e um espaço de acesso ao módulo com um pequeno vestíbulo por pessoa. Entre a copa e o banheiro existe um vazio, que proporciona uma ventilação natural e iluminação dos espaços interiores.

Os materiais utilizados são o concreto em termos estruturais, o painel compensado como revestimento e mobiliário e a piso vinílico antiderrapante. Nas fachadas encontramos elementos metálicos.

Na fachada poente encontra-se um espaço que categorizamos ser de uso coletivo intermediário, uma galeria de convivência, que proporciona o acesso aos módulos. A dimensão generosa da galeria proporciona um espaço de estar previsto para estimular a interação entre os estudantes residentes em módulos próximos.

Além da estrutura e composição descrita acimas, o módulo conta com os, já mencionados, ‘plug-ins’, ou elementos industrializados que se conectam às fachadas de modo a dar uma boa resposta ao seu entorno e ao clima. Para tornar a edificação adaptável ao ambiente e ao clima da cidade, foram escolhidos dois tipos de ‘plug-ins’: painéis retráteis de proteção para os quartos (voltados para nascente); e brises horizontais para vedação das galerias (voltados a poente).


 

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