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ENTRE O OBJETO E O TERRITÓRIO

*texto publicado na revista 30-60 nº 49 sobre os projetos de parklets do coletivo [Park]It

 

veja aqui o projeto

 

Hoje não se mede mais o valor de um edifício apenas por suas dimensões ou sua monumentalidade. Se antes um dos maiores anseios profissionais do arquiteto era ter a oportunidade de encarar um projeto de grande escala, como um museu ou um edifício vertical, atualmente parece tão interessante quanto buscar desafios de outra natureza, que não tenham a ver com a grandiosidade das obras, mas sim com a complexidade dos problemas envolvidos. Ao invés de pensar em objetos autorreferentes, é possível alcançar mais relevância para o debate sobre a produção arquitetônica contemporânea ao se pensar a proposta espacial tendo em vista suas repercussões sociais e urbanas, independente da escala da proposição.

As pequenas intervenções, inclusive, ganham cada vez mais espaço e importância, uma vez que constituem a maior parte da conformação física das cidades. E é justamente por isso que este tipo de projeto tem tanta relevância: se individualmente sua escala é pequena, coletivamente podem ser tão ou mais impactantes para as cidades do que obras de grande porte. Sendo assim, o foco deixa de ser apenas a construção em si e passa a ser as repercussões e relações que este novo objeto vai estabelecer com seu entorno e usuários.

Consequentemente, temos arquitetos cada vez mais conscientes de que, por mais que não se reconheçam mais como redentores isolados capazes de mudar a sociedade, cada decisão projetual implica uma repercussão para a cidade. Essa consciência traz como repercussão uma maior relevância dos temas urbanos e territoriais no debate arquitetônico. Não são mais o edifícios que são os produtos finais do trabalho do arquiteto. Seu campo de trabalho é a cidade, e a construção é uma das formas que têm para atuar neste campo e tentar melhorá-lo de alguma maneira. E neste debate é extremamente urgente que se fale da importância de repensarmos os espaços públicos como o lugar de essência das cidades.

Se é nos espaços privados que desenvolvemos nossas atividades particulares, como morar ou trabalhar, é nos espaços públicos que desenvolvemos nosso exercício de sociedade e coletividade. A essência do público é o convite à reunião e, portanto, a própria ideia de comunidade. Neste contexto, os temas atuais emergentes relativos às cidades, como mobilidade e espaço público, passam a fazer parte diretamente do escopo de trabalho dos arquitetos.

Se entendemos o espaço público como lugar de convívio e de exercício de cidadania, é preciso repensar a forma como o estamos construindo, buscando cidades mais caminháveis, em que o transporte coletivo seja prioritário em relação ao individual, em que o pedestre seja o protagonista da rua, em que os espaços livres sejam de todos e não de ninguém. E, para os arquitetos, a forma de repensar estes espaços é através da proposição espacial.

Neste sentido, o parklet tem sido um tema bastante significativo para o debate do uso dos espaços públicos nas cidades. Basicamente, o parklet transforma o espaço destinado para dois carros em uma área de lazer e convivência. A ideia, apesar de simples, é bastante significativa e tem gerado resultados muito diversos e criativos de apropriação deste espaço. Uma outra característica singular deste tipo de equipamento é a sua replicabilidade, podendo se repetir e adequar em diferentes contextos e cidades, o que o transporta desde a escala do mobiliário (quando pensado individualmente) para a escala do território (quando pensado coletivamente como uma ação que se repete), o que ressalta mais uma vez a importância da intervenção de pequena escala.

Os parklets desenvolvidos em São Paulo pelo coletivo Park[It], formado pelo grupo DesignOk - Zoom Urbanismo Arquitetura e Design, H2C Arquitetura e SuperLimão Studio - juntamente com a Contain[It] e Instituto Mobilidade Verde, são exemplos claros desta postura. Este caso é importante porque explicita, justamente, as duas questões levantadas anteriormente em conjunto: a inserção do projeto de pequeno porte que, ao ser reproduzido, pode causar uma repercussão bem maior, e o interesse na cidade como foco, sendo a proposição do espaço a forma de contribuir para a discussão acerca disto. A própria trajetória dos projetos do coletivo mostra como iniciativas como esta não começam através de demandas de clientes tradicionais, e sim de uma prática investigativa e inovadora. Primeiramente eles conseguiram espaço em mostras e festivais, como Design Weekend e a X Bienal de Arquitetura de São Paulo, para, posteriormente, conseguirem transformar essas investigações em projetos demandados. Esta é outra vantagem dos projetos de pequena escala: dão espaço para essa prática mais investigativa e independente, o que muitas vezes abre um espaço maior para a inovação e implementação de novas ideias.

O fato dos parklets estarem localizados em lugares ocupados normalmente com vagas de carro em espaço públicos é bastante emblemático. Ao atuarem no cotidiano, essas intervenções possuem grande poder transformador, visto que começam a agir no imaginário comum das pessoas. Afinal, atualmente, a transformação de duas vagas de carro em área de convívio ainda gera mais estranhamento do que um carro parado na faixa de pedestre.

E esta é uma questão fundamental que a implementação dos parklets levanta: o espaço público não pode ser entendido apenas como circulação, e sim como espaço de apropriação das pessoas. Há, portanto, uma necessidade urgente de revermos a maneira como estamos configurando estes espaços. Se repensarmos as calçadas para encará-las também como lugar de convívio, deixaremos de ver a cidade como algo que deve funcionar para que o trânsito de carros flua bem, e passaremos a vê-la como algo que deve funcionar para que a vida das pessoas flua bem. Se por um lado a vaga de carro parece olhar pra via dos carros como prioridade, o parklet faz o contrário e olha pra calçada, que pode ser vista como a via dos pedestres. E, estes sim, são os protagonistas do espaço público.

Vale ressaltar, no entanto, que estas pequenas intervenções não substituem ou tornam desnecessário um planejamento em maior escala. Mas como a implementação deste tem um tempo mais longo, a efetivação de propostas de menor escala podem ter um efeito mais imediato. Além disso, intervir em cidades existentes implica em considerar o existente suas limitações consequentemente impostas, e, mesmo não atingindo a situação ideal, é possível trabalhar com adaptações das situações existentes para melhorar a qualidade dos espaços.

Interessante perceber ainda, no caso de Sao Paulo, como iniciativas independentes como esta do coletivo Park[It] podem gerar repercussões positivas: a boa recepção da população em relação à construção dos parklets permitiu transformar a ideia original em política pública de ocupação dos espaços públicos da cidade, revertendo áreas originalmente destinadas aos automóveis para as pessoas. Com a publicação do decreto, todos tem o direito de construir seu próprio parklet. Um excelente exemplo de como através de pequenas intervenções é possível conseguir uma grande mudança.

Bruno Braga