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LUGARES, PERCURSOS E MATERIALIDADE

*texto publicado na revista 30-60 nº52 sobre a Casa 8 do coletivo Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design

 

veja aqui o projeto

A casa é um tema central na arquitetura. Unidade básica do habitar humano, através do estudo desta tipologia é possível perceber as diferenças entre as culturas e costumes, bem como as mudanças que as sociedades passaram ao longo do tempo, seja no que se refere à forma de viver, seja com relação à forma de construir.

A partir das primeiras décadas do século XX, o programa da residência assumiu um papel de destaque ainda maior na produção arquitetônica, havendo vários exemplos paradigmáticos que acompanharam tais avanços sociais e tecnológicos. Os arquitetos modernos, que estavam propondo uma nova maneira de fazer arquitetura, muitas vezes tinham nas residências que projetavam o campo maior de experimentação para colocar em prática seus ideais. Segundo o arquiteto paulista Joaquim Guedes, este programa ‘(...) condensa todos os grandes problemas da arquitetura, sendo considerada o laboratório por excelência da invenção arquitetônica do século XX e da investigação dos limites da arte de construir o espaço humano possível em cada momento e lugar.’ Assim, surgem casas como a Villa Savoye, Casa da Cascata, Casa Farnsworth, Casa Barragán, Casa Ponte, Casa das Canoas, Casa de Vidro, dentre tantas outras, através das quais é possível contar a história da arquitetura do último século.

Se naquele momento estes projetos atuavam de certa maneira como manifestos destes grandes mestres, uma vez que a arquitetura moderna foi construída simultaneamente tanto em teoria como na prática, hoje, em um contexto em que a diversidade e a complexidade dos caminhos do fazer arquitetônico não apontam certezas, parece que, mais do que afirmações universais, alguns arquitetos têm procurado produzir obras que respondam às perguntas específicas de cada caso. Assim, ao invés de se dizer que pela casa se conhece o arquiteto, é possível, em alguns casos, afirmar que pela casa se conhece o lugar, o programa, o cliente, o orçamento, os métodos construtivos.

É neste contexto que se insere a Casa 8, do coletivo paulistano Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design. Trata-se de uma obra que quase não se percebe da rua. Localizada em uma vila no bairro paulistano de Perdizes, sua fachada discreta e recuada se camufla no conjunto de sobrados da rua onde está localizada. As dimensões do lote onde está construída também contribui para sua discrição, uma vez que possui apenas 3,50 metros de frente, em contraponto à extensa profundidade de 18,00 metros.

Essa descrição puramente física e pragmática da percepção inicial que se tem da casa e do seu terreno podem perfeitamente atuar como uma metáfora da maior qualidade do projeto: se à primeira vista quase não se percebe ali uma casa, quando se adentra e se tem a apreensão de todas as características do projeto, nota-se uma profundidade de sentido que se mostra invisível para um olhar mais desatento.

O que o projeto tem de simples em seu encargo e programa, tem de complexo em suas limitações. Transformar um antigo sobrado estreito e fragmentado, com várias divisões e ambientes internos escuros e mal ventilados, numa casa aberta e ampla para um jovem casal exigiu dos arquitetos uma abordagem que fosse além de simplesmente cumprir com os ambientes de uma moradia. E, na estratégia adotada pelos arquitetos, três pontos merecem destaque: a criação de lugares diversos e heterogêneos, a criação de percursos que extrapolam a função de circulação e transformam o espaço em algo a ser percorrido, e a materialidade adotada que confere a identidade de cada ambiente criado ao mesmo tempo em que cria uma certa unidade que dá coerência ao projeto como um todo. Estes três pontos são fundamentais para a compreensão da qualidade do projeto porque são os responsáveis por sua grande riqueza espacial, criada a partir de espaços pequenos e fragmentados preexistentes.

No que se refere ao primeiro ponto, mais do que fachadas, a Casa 8 possui lugares. E um dos grandes méritos do projeto é justamente ter conseguido uma variedade de percepções tão grande a partir de um espaço tão reduzido. A estratégia de reforma interna, ao criar uma nova estrutura de concreto vazada e solta das empenas laterais, supera o desenho em planta, e os arquitetos deixam de pensar em metro quadrado e passam a pensar em metro cúbico. Assim, não só foram extremamente bem sucedidos em transformar espaços fragmentados e escuros em ambientes integrados e iluminados, mas transformaram o sobrado numa casa de três pavimentos, com várias áreas de estar. Isso, aliás, também parece ser um aspecto digno de destaque: a casa possui mais ambientes de estar e convivência ao ar livre do que ambientes fechados, como quartos e salas, e mesmo estes estão sempre conectados diretamente a áreas abertas. A casa, dessa forma, parece ser um convite ao encontro, e transforma a fragmentação inicial em integração, em vários níveis distintos.

Com relação aos percursos, é fundamental entender como os arquitetos articularam a verticalização da casa, pois é justamente daí que vem o nome ao projeto. Através de uma engenhosa articulação que extrapola o entendimento da conexão entre os pavimentos como mera circulação vertical, a casa possui um circuito que, apesar de fechado (formando o “8” do nome, que também pode se transformar no símbolo do infinito, trazendo a ideia das infinitas possibilidades de como percebe o projeto) permite diversas opções de caminhos e acessos. As escadas exercem um papel fundamental na ideia de percurso criada, atuando como protagonistas em tal articulação. Distribuídas em quatro, são diferentes entre si, tanto em seu desenho como nos materiais utilizados, o que parece uma ação deliberada dos arquitetos para estabelecer uma certa hierarquia entre elas. Se as que conectam os ambientes mais formais da casa, como sala e quartos, são mais convencionais, as que levam aos decks e demais áreas de estar externo são escadas tipo Santos Dumont, com os degraus alternados, o que confere um desenho de caráter de uso menos cotidiano do que as outras duas.

Por fim, a forma como a materialidade da casa foi tratada também merece destaque. A exposição dos materiais utilizados, seja o concreto de parte do mobiliário, os tijolos das paredes demolidas que foram reutilizados ou as instalações aparentes, reforçam o caráter da reforma que a casa passou, e faz um total contraponto à situação anterior em que o edifício se encontrava. A diferenciação de piso, como nos ladrilhos utilizados na cozinha e nos pisos de madeira dos decks, dão identidade a cada ambiente de acordo com seu uso, sem necessariamente dividi-lo com elementos construídos, garantindo maior integração e amplitude ao espaço. Ao mesmo tempo, a forma como cada material é tratado e exposto parece seguir o mesmo princípio em todo o projeto, o que confere uma coesão aos diversos lugares da casa.

A Casa 8 é, portanto, um excelente exemplo de como uma situação inicial aparentemente difícil e adversa pode se transformar num projeto criativo e de grande qualidade, e que essa qualidade pode partir, muitas vezes, das próprias limitações encontradas a princípio.

Bruno Braga