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O VAZIO ENTRE O COLETIVO E O INDIVIDUAL

*texto publicado na revista 30-60 n°53 sobre a Casa AV do escirtório Cosi Hirano

 

veja aqui o projeto

 

Se a história da arquitetura é contada através dos edifícios, ou seja, através daquilo que é concreto e construído, o arquiteto paulista Álvaro Puntoni defende que um dos desafios para os arquitetos neste século é a construção do vazio. Segundo ele, esta seria uma forma de reagir à densa ocupação das cidades e tentar abrir clareiras e possibilitar novas dimensões e espaços para o convívio. Esta busca do não construído pode estar em obras das mais variadas escalas, desde pequenas casas a equipamentos de grande escala e impacto urbano.

Para além do paralelo entre o construído e o não construído, a busca do vazio abrange várias outras questões mais amplas e fundamentais para a produção arquitetônica contemporânea. Estão implícitas aí as relações entre o natural e o construído, o aberto e o fechado, o interior e o exterior, o público e o privado.

Trabalhar com conjuntos de casas é caminhar, justamente, neste limite entre a dimensão coletiva e os interesses individuais. Ao não se configurar ainda como um conjunto multifamiliar, esta tipologia transita entre duas esferas de difícil convergência: se na residência temos o mais particular dos programas, ao se juntar várias unidades residenciais cria-se a ideia de conjunto a partir da qual se tem o próprio princípio da vida em comunidade. E é precisamente na tensão deste limite que está a gênese do projeto das Casas AV, do escritório paulista Corsi Hirano.

O projeto se encontra na cidade de Avaré, no interior de São Paulo, e está inserido numa área de expansão urbana pouco densa e predominantemente composta de residências unifamiliares. Tanto este contexto não totalmente consolidado e de maior proximidade das residências com a rua, quanto as dimensões do lote onde se encontra, significativamente maior que a dos vizinhos, favoreceu a experimentação que marca sua implantação.

O ponto de partida do projeto foi, justamente, a decisão corajosa dos arquitetos de inverter o sentido das unidades. No lugar de voltá-las para a rua, criando a frontalidade mais comum que se encontra nas tipologias do entorno, foi criado um pátio interno para o qual se abrem as casas. E aqui entra a importância do desenho do vazio, pois este é o principal responsável pela mediação entre o público e o privado, entre o coletivo e o particular. Este gesto aparentemente simples de inversão do sentido de frontalidade muda radicalmente o padrão encontrado no entorno da relação entre edifício e rua. Se nas edificações vizinhas o que predomina é a fachada marcadamente frontal de acesso, recuada da rua e separada por pequenas muretas ou grades, no caso do projeto das Casas AV o que se vê de fora são as empenas cegas dos edifícios separadas pelo vazio central. Nas empenas, artifícios projetuais tais como soltar o pavimento superior do térreo com uma quase imperceptível esquadria horizontal ou utilizar marcações verticais nas placas cimentícias que revestem o plano superior amenizam o impacto da massa construída. Mas é no contraste entre o construído e o não construído do vazio central que está o grande valor do projeto e sua maior urbanidade. O pátio interno, quando o portão de entrada se encontra aberto, transforma-se quase numa pequena viela, e o conjunto antes fechado de casas dá lugar a uma pequena vila de sobrados. A referência ao entorno e sua atmosfera urbana mais tradicional se dá, portanto, de uma forma sutil, e não direta. Percebe-se que se está frente a um projeto contemporâneo, com outra proposta de inserção, mas que não se impõe ou nega o lugar onde se insere.

O conjunto é formado por oito unidades de dois pavimentos, quatro de cada lado do pátio, formando dois blocos opostos que se abrem para o vazio, e que são espelhadas de duas em duas. No térreo ficam as atividades comuns, como varanda de acesso, estar, cozinha, além de um pátio com lavanderia nos fundos de cada unidade. No pavimento superior se encontram os quartos e um banheiro. A distribuição interna destes ambientes se dá através de um complexo encaixe que gera uma pequena quebra na simetria do conjunto, mas que permite concentrar nas paredes que fazem o espelhamento entre as unidades toda a parte fixa do programa, como escadas e áreas molhadas, facilitando instalações e trazendo racionalidade e economia à obra. Dessa forma, todo o resto da planta é livre para as distribuições e layouts flexíveis, adaptáveis a cada morador.

Os materiais utilizados nas casas parecem também ter sido escolhidos no sentido de reforçar a atmosfera de intimidade que o programa residencial exige. As paredes predominantemente brancas unificam o todo e pelas fachadas de entrada quase não se percebe que ali se encontram quatro unidades duplex. A predominância do branco só é rompida pelas esquadrias, que variam entre venezianas de madeira, bastante adequadas para estratégias de conforto climático, uma vez que protegem do sol e permitem a ventilação, e vidro, onde o destaque está na grande abertura que marca a escada e reforça a unidade de cada bloco ao mostrar o único momento da casa em que o pé direito é duplo. Outro ponto em que a escolha de materiais se mostra decisiva é no piso do pátio central, o mesmo utilizado na calçada, reforçando a continuidade entre o exterior e o interior e a urbanidade da proposta.

Por fim, uma grande virtude que merece destaque nas Casa AV é a transição de escalas que permeiam as decisões precisas do projeto. Se, como já foi mostrado, desde um primeiro momento se observa uma clara intenção criativa na inserção dos edifícios no terreno, o projeto apresenta detalhes sutis que, a primeira vista, podem parecer simples ou mesmo banais, mas onde reside a essência do que os arquitetos defendem. A moldura que, por um lado, dá a ideia de conjunto ao todo ao unificar as unidades numa só edificação, é rompida duas vezes, uma na vertical e outra na horizontal, com rasgos que criam a tensão necessária pra quebrar a unidade do todo. A partir destes pequenos detalhes construtivos percebe-se que o que vemos não é simplesmente um bloco construído, mas que por trás daquelas superfícies há outras divisões, sejam de diferentes unidades (no rasgo da linha horizontal) sejam de diferentes pavimentos (nos rasgos das linhas verticais). O vazio que, na escala do pátio central, divide o conjunto como um todo em dois blocos, chega à escala do detalhe, e marca a divisão individual de cada bloco, reduzindo o todo à unidade de cada parte. Mais uma vez é através do não construído que os arquitetos mostram a força do projeto.

Nas palavras dos próprios arquitetos, este é um projeto modesto, direto. Mas ele é assim justamente por saber reconhecer que são outras as questões fundamentais em casos como este. Mais do que excessos formais, a qualidade de um projeto deste tipo reside em como ele consegue abrir espaços de qualidade para que os mais diversos usos possam acontecer, coletivos ou individuais, seja na escala urbana, através de novas formas de se pensar a inserção urbana, ou na escala do edifício, através dos detalhes construtivos. Ou, como no caso das Casas AV, de ambos.

Bruno Braga