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MONUMENTO DA LUZ

Autores: Bruno Perdigão, Igor Ribeiro e Luiz Cattony;

Colaboradores: Frederico Leite, Julia Mafaldo e Maiara Lacerda

Sobral, CE, 2018

* Menção Honrosa  no Concurso Monumento da Luz organizado pela Prefeitura de Sobral e IAB-CE

 

Quando os cientistas foram à Sobral em 1919, por ocasião do eclipse solar, e comprovaram a Teoria da Relatividade Geral, este evento trouxe repercussões bastante significativas para o conhecimento científico, como a influência que a gravidade exerce tanto na trajetória dos raios de luz quanto na passagem do tempo. A construção do Monumento da Luz, que homenageia este fato histórico, não deve buscar simular ou imitar um feito de tamanha importância, mas sim entender o que foi atingido e, de alguma forma, remeter indiretamente ao evento, compreendendo os limites de atributos próprios da linguagem arquitetônica. Nesse sentido, esta proposta busca trabalhar com três elementos que são fundamentais na descoberta de 1919 e que também fazem parte do material de trabalho da arquitetura: a luz, a gravidade e o tempo. A pergunta que resta é: de que forma estes três aspectos podem interagir nesse novo marco para a cidade de Sobral, de maneira a referenciar o fenômeno físico mas potencializando suas características espaciais arquitetônicas?

 

Sobre a escolha do lugar

 

Das opções sugeridas pelo concurso para a construção do Monumento da Luz, foi escolhida a Área A, da Margem Esquerda do Rio Acaraú. A escolha considera a importância do Monumento sob dois aspectos principais: sua dimensão simbólica e seu potencial urbano. Sobre o primeiro, de forma a destacar a cidade de Sobral e o próprio evento a que a obra se refere, considerou-se que este terreno contempla características mais significativas. Sua localização na entrada da cidade apresenta um forte e marcante apelo visual, com grande potencial turístico, principalmente considerando que a margem esquerda do rio é uma área já prevista para abrigar programas e equipamentos com este fim. No entanto, para além da carga simbólica, considera-se que a Área A, por ser de maiores dimensões, abre mais possibilidades para o projeto extrapolar a função de simples monumento e de se pensar em um espaço público mais amplo, uma praça, que seja atraente para o visitante mas, principalmente, para a população. Pareceu mais interessante superar a noção de objeto isolado, escultural e auto-referente, apenas para apreciação visual, e criar uma área convidativa, atraente, educativa e acessível, que estimule a apropriação da população e que permita diversos usos ao longo do tempo. A proposta, nesse sentido, extrapola a ideia de escultura e ganha uma dimensão urbana, atuando como potencial catalisador de melhorias para seu entorno imediato.

 

O Monumento

 

Uma vez definida a abordagem inicial baseada na interpretação dos elementos da luz, da gravidade e do tempo em suas dimensões arquitetônicas e decidida a área de intervenção e seus potenciais levantados, o projeto do monumento articulou-se a partir do desenho de um volume retangular de 10,00 por 2,50 por 16,00 metros, de escala robusta e uma inquietante fenda que o divide em dois, e que atua como elemento central a partir do qual são trabalhados tais potenciais. E aqui entra o primeiro elemento explorado: o tempo. O Monumento da Luz requer tempo de apreciação, a mera observação passiva não é suficiente. Portanto, em um primeiro momento, considerando seu papel como elemento de destaque na paisagem, sua forma simples e atemporal, mas também expressiva e com identidade forte, gera um elemento primitivo, do qual diferentes interpretações e apropriações podem acontecer, de maneira a despertar a curiosidade por sua escala à primeira vista a partir de um distanciamento e apropriação visual, e várias descobertas num segundo momento de aproximação física. Localizado no ponto central do terreno, o volume se coloca como articulador de uma praça ao seu redor, com diversas possibilidades de apropriação pela população, quando mais uma vez o tempo atua. Dependendo do dia, do horário, o Monumento pode ser apreendido de forma diferente, não por ele em si, mas pelo uso de seu entorno, da praça. Aproximando-se mais, na escala do espaço urbano criado, percebe-se que o volume está levemente elevado do chão, e os outros dois elementos, luz e gravidade, atuam em conjunto para soltar o pesado elemento escultórico, que ganha leveza. A ausência de luz sugere a ausência de gravidade, e a força do peso do volume construído é amplificada gerando uma aparente tensão através da sombra que parece fazê-lo flutuar. Com um simples jogo de ângulos visuais, o volume simples começa a despertar mais curiosidade e interessantes apreciações visuais. Por fim, aproximando-se mais ainda, na escala do objeto em si, é possível explorar ainda mais o jogo de ângulos, uma vez que a fenda revela-se como um conjunto de espelhos internos em que, a depender da posição, vê-se o que está do outro lado. Assim como, a partir da descoberta de 1919, vemos as estrelas que não estão realmente naquele ponto do céu, vemos as pessoas e as paisagens naquele elemento que se dilui em imagens que não estão realmente lá. E esse é o último artifício do projeto: aquele volume forte, pesado e marcante de longe, vai ficando leve, se desmaterializando à medida que se aproxima, até que deixa de ser barreira e passa a ser espelho de pessoas, do entorno, de nós mesmos.