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TRANSIÇÃO E SUSTENTABILIDADE NO PROJETO DA COMUNIDADE VERDES MARES: NOVOS PARADIGMAS EM HABITAÇÃO SOCIAL

*artigo selecionado para apresentação oral em mesa redonda no 19º Congresso Brasileiro de Arquitetos, que aconteceu em junho deste ano em Recife e Olinda.

 

 

Transição significa passagem de um estado de coisas para outro. Assim, “Arquitetura em Transição” admite que seu estado, ou seja, os fatos arquitetônicos estão mudando. Os problemas e desafios encarados pelos arquitetos não são os mesmos, sendo preciso identificar e compreender quais são as novas perguntas.

 

Pareceu, portanto, adequado tratar de um projeto arquitetônico que pretende responder tais questões. O projeto de requalificação da Favela Verdes Mares, em Fortaleza, vencedor do Prêmio Caixa/IAB 2008–2009, embasado em intensa reflexão teórica, permite através de uma análise critica de seu processo projetual, contribuir para a teoria do projeto.

 

Esta análise considera desde fatores externos que vêm formular o problema a ser resolvido – conhecimento inespecífico da disciplina – até o resultado final do projeto arquitetônico – síntese do conhecimento específico da arquitetura[1]. Não se pretende com isso propor um modelo normativo e fechado em si próprio, mas uma postura frente aos novos problemas, aberta às especificidades e aplicável a cada situação. Assim, através da relação e coerência entre forma e palavra, projeto e discurso, é possível estreitar o abismo atualmente existente entre teoria e prática.

 

Um dos maiores desafios do panorama arquitetônico atual é a relação entre novas tecnologias, processos construtivos e meio ambiente. Compreender este último apenas como entorno natural não é suficiente para discutir a questão da sustentabilidade, pois o projeto é um conjunto indissociável e contraditório, onde outros múltiplos aspectos se apresentam, como os sociais e econômicos. O projeto pode ter fim com a construção, mas a arquitetura não, já que esta não é apenas construção, mas uma forma de intensificá-la e carregá-la de sentido[2]. Na verdade, a interação entre usuários, meio natural e arquitetura gera novas formas e maneiras de se pensar o projeto.

 

Em relação à questão habitacional, o enfoque demasiado em aspectos isolados, como quantidade de unidades, busca exclusiva por questões formais ou procura de novas tecnologias ditas sustentáveis, distancia o projeto de uma solução coerente. Certos excessos e falta de compromisso com aspectos como economia, racionalidade construtiva e real desenvolvimento social não podem mais ser cometidos. A sustentabilidade, termo tão usado quanto deturpado atualmente, é um conceito importante e merece especial atenção nessa discussão. Ser sustentável não é apenas ser ecologicamente correto, mas também socialmente justo, economicamente viável e culturalmente aceito, características que sempre marcaram obras arquitetônicas rigorosas e pertinentes.

 

No projeto em questão, antes de propor uma solução, buscou-se entender melhor o problema, reformulando as perguntas a serem respondidas. Mais que quantas casas propor, pareceu mais adequado pensar em onde e como propô-las.

 

A área de intervenção é caracterizada como um assentamento informal, ocupando áreas residuais do loteamento feito na região, onde as residências tomaram todos os espaços possíveis, de forma desordenada e em condições habitacionais insatisfatórias. Apresenta, também, grande quantidade de equipamentos, serviços e, conseqüentemente, oportunidades, gerando forte especulação imobiliária. Isso acarreta uma grande densidade nas áreas de ocupação informal e presença de terrenos vazios, que não cumprem sua função social, caso do terreno em questão, compondo assim um espaço contraditório e desarticulado.

 

O projeto teve duas premissas iniciais: integrar este tecido informal ao da cidade e facilitar o desenvolvimento social dos moradores. A manutenção da comunidade no local torna possível transformar suas novas residências em um investimento[3], fazendo também com que a população possa ascender socialmente junto delas e manter as redes sociais existentes, evitando a criação de mais um conjunto habitacional suburbano e custos de infra-estrutura desnecessários.

 

Buscou-se, ainda, preservar as particularidades da comunidade sem transformá-la num gueto isolado da cidade. O desenho adotado buscou integrar o novo conjunto à malha urbana preexistente, conferindo, porém, especificidades, com padrões de ruas internas diferenciadas interligadas por mini-praças no interior das quadras, cedendo espaços de socialização, exemplo do centro social proposto.

 

Identificada forte presença de atividade comercial na área, não era interessante ter uma família morando sobre a outra. Procurou-se, então, obter a unidade de dois pavimentos mais estreita possível, dando maior flexibilidade às famílias, inclusive nas possíveis ampliações futuras.

 

A escassez de recursos foi encarada como um incentivo à criatividade e filtro do supérfluo. Assim, a sustentabilidade da proposta não surge como objetivo em si, mas como conseqüência da síntese dos fatores encontrados e de um processo rigoroso. Na escolha do local, considera-se sua viabilidade econômica e social. As técnicas e materiais escolhidos foram os mais adequados a esse problema específico: baixo custo e reprodução em série. Nesse caso, qualquer desperdício é multiplicado, devendo ser reduzido ao máximo. Para isso, fez-se uso da modulação e estruturas pré-fabricadas, porém buscando soluções tradicionais em relação ao clima e à mão-obra disponível. Como resposta a essa equação utilizou-se o tijolo solo-cimento para a construção das casas.

 

Em Fortaleza, o melhor lugar para se estar é na sombra e onde o vento circule. Essas preocupações são perceptíveis tanto nos recuos nas fachadas e esquadrias com venezianas e vidro, quanto em janelas altas nas paredes dos quartos e no espaço entre a coberta e o forro, para melhor circulação do ar.

 

O crescimento econômico muitas vezes está ligado ao crescimento espacial. As intervenções posteriores dos moradores são uma realidade, não devendo ser negadas, mas trabalhadas. Ao invés de tentar evitar a autoconstrução, a proposta tentou dar condições para que isso ocorresse sem maiores prejuízos para o coletivo. Ou seja, não a controlando, mas prevendo-a de forma ordenada.

 

Compreendendo o projeto como atividade principal do arquiteto, este trabalho busca realizar uma reflexão teórica sobre o processo projetual e o rigor necessário na atualidade na compreensão dos problemas enfrentados, com ênfase na relação entre arquitetura e meio ambiente. Os novos paradigmas da sustentabilidade não devem ser encarados como restritivos, mas balizadores, pois se oferecem limitações, também descortinam novas oportunidades projetuais. A escolha de um projeto para exemplificar o exposto objetiva mostrar como não deve haver dissociação entre a teoria e prática arquitetônicas, mas sim uma coexistência entre ambas[4]. Em arquitetura, não há teoria ou prática, e sim teoria e prática.

 

[1] A interdisciplinaridade não pode se sobrepor ao desenvolvimento de propostas voltadas para a arquitetura como disciplina em si. Ver:“(In)Disciplina: considerações sobre a autonomia do ensino de projeto” em: LARA, Fernando e MARQUES, Sônia (Org.). Desafios e conquistas da pesquisa e do ensino de projeto.

[2] OYARZUN, Fernando Pérez, MORI, Alejandro Aravena, CHALA, José Quintanilla. Los hechos de La arquitectura.

[3] O desenho da casa possibilita o investimento das famílias, fazendo que a casa se valorize com o tempo. Conceito desenvolvido pelo escritório chileno Elemental, liderado por Alejandro Aravena. Ver: MORI, Alejandro Aravena. Entrevista com o arquiteto.

[4] MAHFUZ, Edson da Cunha. Teoria, história e crítica, e a prática de projeto.

 

 

Autores:

Bruno Braga| Bruno Perdigão| Epifanio Almeida|

Igor Ribeiro| Marcelo Bacelar