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VEM PRA RUA, FORTALEZA

*texto publicado no jornal O Povo em 25/8/13

 

 

É perceptível a dificuldade de parte população em aceitar que soluções diferentes das convencionais possam ser aplicadas para os problemas urbanos de nossa cidade. Nem sempre é por falta de conhecimento ou informação, afinal, excelentes exemplos de outras cidades estão sendo mais difundidos e a opinião de profissionais ligados ao urbanismo está sendo ouvida. No entanto, quando se propõe soluções inovadoras para Fortaleza, a resistência ainda é muito grande. Parte dessa resistência se deve ao imediatismo característico de como a cidade tem sido feita nos últimos anos: obras e mais obras, sempre no intuito de resolver um problema pontual que se diz urgente. Porém, o que não faltam em nossa cidade são problemas urgentes. Mas como se definem prioridades?

 

O episódio do viaduto, em Fortaleza, é mais um ingrediente que torna necessário ampliar o debate sobre a Cidade. Dentro desse contexto, o tema da mobilidade urbana aparece ainda mais forte e, como todo tema que ganha destaque, corre risco de sofrer desgastes. Muitas vezes a questão parece ser reduzida apenas a ser contra viadutos ou a favor de faixas exclusivas para ônibus e ciclovias, além de virar discurso fácil pra qualquer gestor justificar qualquer obra. Devemos aproveitar o momento para repensar um ponto fundamental de nossa cidade que é a rua. É um diagnóstico comum dizer que Fortaleza carece de espaços públicos de qualidade, porém, geralmente nos referimos apenas a praças e parques, e esquecemos que a maior quantidade de espaços públicos que temos na cidade é formada por ruas. Dificilmente conseguimos imaginá-la de outra forma que não sendo de asfalto e concreto, feita para carros e não para pessoas. Dessa maneira, estamos abrindo mão de uma enorme área de espaços públicos que poderiam ser feitos de maneira a melhorar nossa qualidade de vida, com mais conforto, arborização, sombra, mais espaços de convivência, de lazer, com menos barulho de buzinas e motores.

 

As ruas podem ser de diversos tipos, de maneira a atender as demandas específicas de cada área da cidade. Podem ser exclusivas para pedestre, aumentando o conforto do passeio e aumentando o fluxo de pessoas. Podem ter uso compartilhado, em que o fluxo de carro é permitido, mas é controlado. As avenidas podem ter calçadas largas para tornar a via um espaço menos opressor à caminhada. Podemos ter ruas com mais áreas verdes, onde as árvores servem para fazer sombra, melhorando o conforto do transeunte, e os jardins servem para absorção das águas da chuva, contribuindo para diminuir os alagamentos. As possibilidades são muitas e quase nunca discutidas. Repensar a maneira como fazemos nossas ruas é repensar a cidade inteira e essas pequenas medidas feitas em grande escala teriam um impacto muito grande na melhoria da qualidade do espaço urbano.

 

Mobilidade urbana, no entanto, é apenas um dos fatores do planejamento urbano. Precisamos discutir o uso e a ocupação do solo, a necessidade de adensar áreas dotadas de infraestrutura, um modelo de verticalização da cidade que não seja predatório, as demandas de habitação social, a conservação do nosso patrimônio histórico, a requalificação do Centro da cidade. O planejamento tem que atender a diversas questões. O que não é mais admissível é que todos os projetos e obras públicas da nossa cidade sejam impostos de maneira autoritária: surgem “do nada”, muitas vezes sem autoria explícita, licitados com projeto básico e vendidos como “a única solução viável”. A principal lição que nós fortalezenses precisamos tirar desse imbróglio do viaduto é que podemos e devemos ser ouvidos sobre os projetos desenvolvidos pra nossa cidade. Para isso, os concursos públicos de projeto e os planos participativos são a melhor opção para democratizar as soluções arquitetônicas e urbanísticas.

 

Existe um esforço por parte de grupos, tanto do setor público como do privado, de desqualificar a ideia de planejamento participativo, geralmente com argumentos de que gera ineficiência e que “a cidade não pode parar”. Mas a quem interessa não ter um planejamento pra seguir? A quem interessa que a população não possa participar das decisões? Para além da discussão técnica, existe um comportamento em nossa cidade que precisa ser superado. Algumas práticas de nossa sociedade - que sempre busca segmentar ao máximo os lugares que frequenta, criando áreas VIP, camarotes, cordão de isolamento, etc -, são refletidos no pensamento sobre a cidade. Para esses setores, é difícil aceitar a ideia de espaços coletivos, acessíveis a todos, onde pessoas de diversos tipos e classes sociais se misturam. Devemos acabar com a tendência constante de segregação dos espaços para, enfim, podermos pensar numa cidade melhor.

Bruno Perdigão